Advogando Por Woody

srtydrtytryRepulsa é o que alguns sentem por Woody Allen, por causa de sua polêmica vida pessoal (envolvimento amoroso com a enteada, acusação extrajudicial de abuso sexual pela filha) ou devido à natureza idiossincrática dos filmes que autora a cada ano (bastante dialogados, de tendência intelectualizada).

Nutro semelhante sentimento, não pelo novaiorquino neurótico que legou às telas preciosidades do quilate de A Rosa Púrpura do Cairo e Hannah e Suas Irmãs, mas pela estupidez de críticos renomados, empregados por publicações famosas, que insistem em abusar da autoridade e do apelo público proporcionados pelo cargo para a) destilar diatribes venenosas que mais parecem provocações de trolls a infestar redes sociais como o Filmow e b) subliminarmente desqualificar leitores que ousem ter um ponto de vista contrário.

O recém-lançado (nos EUA) Mágica ao Luar aparenta ser um divertimento leve, na linha de Scoop e Meia-Noite em Paris. Inofensivo. Ocorre que há gente capaz de se ofender por coisas assim. Aliás, “ofender”, no caso, soa como eufemismo. A desculpa perfeita para jogar no lixo os últimos 20 anos de carreira de Allen (sem abrir exceções para Tiros na Broadway, Desconstruindo Harry, Poucas e Boas, Match Point, Vicky Christina Barcelona, Meia-Noite em Paris e Blue Jasmine) enquanto deixa a entender que só teimosos pretensiosos fingem ainda encontrar qualidades no trabalho dele.

Ninguém está argumentando que o Allen do novo milênio preserva vigor criativo equivalente ao evidenciado nas décadas de 70 e 80. A falácia está em lançar mão de afirmações generalizantes com o intuito de colocar duas dezenas de longas (tão distintos entre si em gênero, qualidade e atributos estilísticos quanto Igual a Tudo na Vida e O Sonho de Cassandra) na mesma piñata para ser arrebentada a pauladas, desferidas por um profissional cujo salário deveria remunerar o fornecimento de opiniões fundamentadas via escrita civilizada.

~ por Gustavo H.R. em 29 de julho de 2014.

2 Respostas to “Advogando Por Woody”

  1. Seu ótimo texto sobre este tipo de situação pode abranger um contexto que vai além da crítica de cinema.

    Infelizmente vivemos tempos em que a maioria das pessoas querem dar sua opinião sobre todos os assuntos e não aceitam opiniões contrárias. Qualquer pensamento diferente logo é taxado de adjetivos pejorativos.O crescimento da internet fez crescer também estas atitudes.

    Muitos críticos de cinema “profissionais” tendem a desqualificar quem escreve sobre o assunto por prazer, esquecendo que cinema é divertimento e está longe de ser uma ciência exata. Um ótimo filme para fulano, pode ser chato para beltrano.

    Abraço

    • Precisamente. Quando vemos pessoas “normais” discutindo assim (como eu ou qualquer outro comentarista amador), não há por que se espantar, mas o mesmo não se pode dizer de ditos profissionais do ramo, que deveriam saber usar de argumentos válidos para defender seu ponto de vista.

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