Em Defesa da Liberdade Artística de Bigelow e Boal

mayadreren

O limite de 140 caracteres imposto pelo Twitter seria insuficiente para rebater os ataques publicados na Revista Época por Marcelo Bernardes no tocante à bússola ideológica de A Hora Mais Escura.

O surpreendente é que Kathryn […] acredite ter feito um filme contra a tortura. Não o fez.

Bigelow e Boal não fizeram um libelo explicitamente antitortura. Fato.

Diretora e roteirista desviaram do atalho populista de embutir discursos moralizadores na boca dos personagens. Zero Dark Thirty é entretenimento que faz jus ao termo adulto. Gente crescida é capaz de observar o conteúdo projetado na telona e tirar as próprias conclusões sem precisarem ser coagidos ou instruídos para isso. Didaticismo: muleta do cineasta inseguro e do espectador acomodado.

O Sr. Bernardes trai um ressentimento por terem se recusado a passar a mão na sua cabeça e ratificar sua posição político-ideológica.

Desde a primeira cena, o espectador é aliciado emocionalmente para o lado dos torturadores.

spoilerO filme mantém-se impassível no decorrer da supracitada cena. Inexiste música ufanista, a edição objetiva é impossível de ser confundida com manipulação tendenciosa, o posicionamento da câmera nem por um segundo periga mitificar os dominadores “imperialistas”. À vítima é reservado espaço para a inequívoca percepção do seu sofrimento prolongado, da indignidade que lhe fora inflingida. Mal conhecemos Maya (Chastain) e Dan (Jason Clarke) nesse prólogo. Ambos figuras ainda desconhecidas, que tampouco demonstram prazer naquilo que estão fazendo.

A trama sugere que são pessoas boas, forçadas pelas circunstâncias a fazerem coisas ruins.

O Sr. Bernardes dá a entender que ficaria mais confortável caso os americanos tivessem sido caracterizados como monstros sanguinários, unidimensionais, estereotipados. Defesa velada do maniqueísmo na arte.

Justo indagar se o crítico também censurou Spielberg e Polanski por humanizarem nazistas em A Lista de Schindler e O Pianista. Teria pedido a cabeça do alemão Oliver Hirschbiegel, que ousou retratar Hitler como representante da espécie Homo sapiens em A Queda?

O time no qual ZDT trava o foco é composto por agentes do governo, cumprindo uma função, encarregado com missões de segurança nacional, embora se valham de métodos questionáveis quando as circunstâncias os obrigam. Dan, em particular, aparenta ser o mais consumido pelo ofício, tanto que, a certa altura, sai de campo para se embrenhar em escritórios do alto escalão da CIA em Washington. O arco transformativo percorrido por Maya se resume ao endurecimento da personalidade, de tarefeira idealista para obsessiva vingativa. Recrudescimento.

Em momento algum o filme sugere qualquer curso de ação alternativo e possível.

Por qual motivo, então, um pedaço crucial de informação é obtido durante uma conversa conduzida sem violência (apesar da ameaça sempre pairar no ar), na presença de comida e bebida, com o exato sujeito seviciado no início? Subliminarmente, quem colocar os neurônios para funcionar chegará à conclusão de que a tortura não garante a obtenção dos dados almejados.

“O fato de eu mostrar cenas de tortura não me torna defensora delas”, afirma Kathryn. Nem a torna uma crítica, é possível dizer.

Bigelow não tem a obrigação ou o dever ético de criticar o que algum jornalista aleatório quiser. Ela é uma artista madura, carrega ampla bagagem intelectual (recomendo ao Sr. Bernardes inteirar-se do background pré-cinema dela), dona de uma visão particular sobre o tema desenvolvido. Usufrui de liberdade de pensamento e expressão para comunicar o que bem entender. Idem para o parceiro Mark Boal. Soa óbvio, mas não para o articulista, que outra vez deixa escancarada a necessidade de ter as coisas explicadas tintim-por-tintim, mastigadinhas no seu colo, prontas para consumo confortável.

De acordo com a minha leitura, fundado na observação do desfecho e no estudo dos semblantes de Chastain e Clarke, a obra adquire peso por gravar com contundência o custo do derramamento de sangue na alma dos responsáveis. Atente para o choro de Maya logo antes de subirem os créditos: incerta do seu próximo destino quando questionada aonde deseja ir, acomodada em um cargueiro vazio (simbolizando o interior dela?). Em vez de catarse triunfalista, as copiosas lágrimas vertidas lamentam a relativização de quaisquer valores morais em prol de uma intempestiva caçada política fundada no “olho por olho”.

Assim como o brasileiro Tropa de Elite não é um filme contra a violência policial, apesar das melhores intenções de seu diretor, José Padilha, tampouco A Hora Mais Escura é contra a tortura. Ambos transmitem mensagens ideológicas que parecem contrariar as intenções de seus realizadores.

Repetitivo, o Sr. Bernardes insiste em bater nas teclas frágeis já espalhadas ao longo da matéria. Sinal do desconcerto face a uma produção hollywoodiana cuja “mensagem” – se de fato houver alguma – é de responsabilidade do pagante decodificar, com base no que os realizadores apresentaram. Citar as supostas intenções dos cérebros por trás da empreitada não passa de fumaça e espelhos, pois o Sr. Bernardes desde o início faz questão de descartá-las, favorecendo, pelo contrário, sua impermeabilidade às nuances de atuação do elenco e ao estratagema estético-narrativo do objeto em análise.

~ por Gustavo H.R. em 19 de fevereiro de 2013.

5 Respostas to “Em Defesa da Liberdade Artística de Bigelow e Boal”

  1. Bem dito!
    Argumentos pífios como esse do cara época dão até preguiça de serem rebatidos, mas você fez muito bem.

    É um absurdo alguém assistir ao filme e achar que a tortura está sendo glorificada.

  2. Bom trabalho de refutação! Apesar não considerar A Hora Mais Escura uma obra-prime (é tampouco o meu preferido na corrida pelo Oscar), acho que justiça deve ser feita na hora de rotulá-lo.

  3. Brilhante comentário!

  4. Gustavo, MUITO OBRIGADA por essa postagem. Toda a preguiça intelectual em torno dos rótulos de “A Hora Mais Escura” (vi outra matéria numa linha bem parecida no CinePipocaCult) estão me atormentando, e também tentei escrever uma crítica sobre o assunto (aqui: http://falacultura.com/2013/02/20/a-hora-mais-escura/), mas não argumentei com tanta consistência quanto você. Fico muito feliz de ver que algumas pessoas estão conseguindo enxergar além da “opinião do rebanho” e ter outras leituras do filme…

    “A Hora Mais Escura” também não era meu favorito para o Oscar, mas acho que ele foi preterido pelos motivos errados.

  5. um BRAVO! para a sua postagem, meu caro!

Os comentários estão desativados.