Sobre Prometheus

[…] Scott’s chosen thesis: that all parents — God included — in some manner hate their children, and that children, equally, despise those who gave them life.

The underlying, subconscious reason for this reciprocal relationship of apparent hatred involves our very mortality, a topic that Ridley Scott also explored meaningfully in Blade Runner.  Parents want to live longer and hold onto their supremacy until the bitter end.  And children — symbols of a future that parents won’t live to see — want to usurp established authority and become dominant sooner rather than later. [John Kenneth Muir | Cult Movie Review: Prometheus (2012) | 19/6/2012]

O ensaio de John Kenneth Muir, no qual interpreta a simbologia visual e os eventos de Prometheus, é elucidativo. Jornalista, autor de obras sobre horror e ficção científica, editor de um site e um blog dedicados a estudar programas dos gêneros citados, Muir ressalta as dicotomias do roteiro assinado por Damon Lindelof, fazendo ponte temática com um marco anterior comandado por Ridley Scott, Blade Runner.

A leitura propõe que cada decisão tomada pelas mentes criativas por trás dos conceitos burilados na trama desta prequel/side story foi deliberada, ao contrário dos que as acusam de atirar no escuro, serem ambígua a ponto de redundar na inescrutabilidade ou darem um passo maior que a perna.

O mote do filme reside no antagonismo entre pais e filhos, criadores e criaturas. Em específico, no rito de ‘passagem do bastão’, no qual o progenitor, vivido o suficiente, cede espaço à prole que o sucederá, iniciando um legado próprio. É sumarizadora a fala de Meredith Vickers (Charlize Theron) – “A king has his reign… And then he dies. It’s inevitable” – dirigida ao patriarca, Peter Weyland (Guy Pearce), cuja meta é a imortalidade, impedindo o processo de amadurecimento da filha, desvirtuando umo ciclo natural.

O dilema transcende a esfera individual. Semelhante embate dá-se entre Engenheiros e humanos – ecoando, também, entre o androide David 8 (Michael Fassbender) e seu mestre-construtor Weyland (ou a raça humana em geral). O rei não quer ceder o trono ao legítimo herdeiro. Este ambiciona tomar o trono daquele, o que lhe é de direito.

O único Engenheiro sobrevivente da suposta epidemia de 2000 anos atrás desperta da hibernação. Depara-se com aquelas pessoas (frutos da sua espécie) abordando-o com arrogância como um igual, questionando-o, fazendo exigências. O ser albino se enfurece. Por quê? Indignação? Receio? O descendente inferior esquece-se de permanecer no devido lugar. Implicação: a possibilidade de ser sobrepujado no futuro.

Pela breve reação, o space jokey dá sinais de ter percebido que David era um ser artificial. O insulto se agrava. O gigante alabastrino deve ter matutado: somos deuses, capazes de originar a vida. Nossa criação ousa imitar? Qual a próxima etapa, destruir-nos? A partir daí o título do filme ganha sentido. O titã do mito grego roubou o fogo, exclusivo dos deuses do Olimpo. Entregou-o aos mortais, elevando-os a uma posição de superioridade perante outros animais. Acabou castigado por Zeus. O Prometeu de Scott não se resume a Peter Weyland (em busca de driblar a finitude, herdeiro espiritual dos replicantes de Blade Runner). Todos espelhamos tal transgressão enquanto espécie, alimentando a pretensão de ficarmos à altura de Deus.

Muir considera a possibilidade de os humanos resultarem de mero experimento, projeto em andamento ou acidente dos Engenheiros (experimentadores genéticos). Debruça-se acerca das motivações e da personalidade nebulosas de David, resgatando Lawrence da Arábia como fonte de pistas para decodificar o personagem, cujas ações propositais influenciam o desenrolar dos fatos, coadunando-se à malha temática do filme. À semelhança de T.E. Lawrence (Peter O’Toole), espremido entre ingleses e árabes durante uma revolução no clássico de Lean, o androide de Fassbender não pertence a nenhum dos times em contenção. No entanto, é dotado de singularidade o bastante para, com desenvoltura, perseguir seus desígnios, tirando vantagem ora dos fabricantes terráqueos, ora dos “avós” alienígenas.

Adiante, Muir volta sua atenção à protagonista, Elizabeth Shaw. Órfã desde a tenra infância, de ventre estéril, destrinchando sua carência familiar como gênese da fé religiosa à qual ela insiste em se apegar, mesmo sendo cientista, confrontada com a existência dos extraterrestres. A crença a impulsiona a prosseguir na jornada rumo ao planeta natal dos Engenheiros, em busca das origens da humanidade ou, quem sabe, do Deus supremo que, por sua vez, teria concebido os space jokeys.

Outras dissertações – a publicada no Rope of Silicon; a intelecção letrada de M. Morse, parametrizada por Nietzsche e Lovecraft -, agregadas à de Muir, elucidam e expandem as imagens de Scott, destacando-se como testamento à complexidade a pulsar na mais rica F.C. desde 2001, ano do advento de A.I. Inteligência Artificial.

~ por Gustavo H.R. em 23 de junho de 2012.