Oscar! Oscar! #2

Ano: 1999.

Ranking dos indicados a Melhor Filme:

  1. O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg: a visceralidade emocional a permear cada polegada de celulóide da abordagem spielbergiana do inferno da guerra tinham, até então, pouquíssimos paralelos na cinematografia hollywoodiana.
  2. Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick: fracasso de público no lançamento, ao passo que hoje o número de admiradores a descobri-lo só tende a crescer. O impacto imediato que sobra em Ryan é proporcional à intensidade psicológica aqui priorizada.
  3. Shakespeare Apaixonado, de John Madden: espirituoso, cheio de charme, povoado por um elenco nota mil. Uma comédia romântica um pontinho acima da média, mas… Best Picture of the Year
  4. A Vida É Bela, de Roberto Benigni: ótimo, bonzinho – obra-prima? Não tenho certeza; deve fazer uma década desde a última sessão. Difícil é esquecer é o pudim de lágrimas no qual me transformo assim que os créditos começam a rolar. 
  5. Elizabeth, de Shekhar Kapur: longe da visão sanitizada de period pieces e dramas reais do passado, mas túrgido, desengonçado. Prejudicado por um Joseph Fiennes (tão inspirado em Shakespeare!) expressivo como o infame Cigano Igor.

Venceu: Shakespeare Apaixonado. A longo prazo, os esforços de Weinstein parecem ter saído pela culatra, pois a overdose dourada prejudicou a reputação dessa fita simpática, bem-feita, digna de elogios, que de melhor nada tinha, salvo os atores, a música ou a maquiagem. É comum, agora, vê-la tachada de “superestimada” – ela o é apenas quando confrontada com o peso simbólico da honraria com a qual foi agraciada.

Deveria ter sido lembrado: O Show de Truman – O Show da Vida (Peter Weir); Tango (Carlos Saura); Deuses e Monstros (Bill Condon); Assédio (Bernardo Bertolucci).

~ por Gustavo H.R. em 12 de novembro de 2010.

9 Respostas to “Oscar! Oscar! #2”

  1. Subscrevo todas as considerações, só daria maior pontuação ao filme de Malick e ao de Benigni. Mas concordo com o que diz em relação ao RYAN e ao SHAKESPEARE, até mesmo com o que diz em relação ao ELIZABETH.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD – A Estrada do Cinema «

  2. Meu favorito dos indicados é A VIDA É BELA (10/10). Se também estivesse na disputa (a Melhor Filme) CENTRAL DO BRASIL, não saberia qual escolher. Disputaram a Melhor Filme em Língua Estrangeira, com vitória italiana. Eu daria empate.

    • Faz muito tempo que vi os dois, mas de acordo com meus arquivos e minha memória, gosto bastante de ambos. Gostaria de vê-los novamente. O filme de Benigni é o que mais me fez chorar na vida…

  3. Concordo com as consideração. Shakespeare é um bom filme massacrado por todos (e pobre da Gwyneth). O Resgate seria, com certeza, uma melhor opção, assim como uma lembraça à Central do Brasil.

  4. Convencionou-se tachar “Shakespeare Apaixonado” como superestimado hoje em dia, mas esquecem que o filme, à época do lançamento, foi muito bem recebido pela crítica – inclusive, no site Rotten Tomatoes, o filme tem maior cotação do que Saving Private Ryan. Concordo que o filme do Spielberg tenha ótimos momentos e, particularmente, sou apaixonado pelo design de som do filme, mas, no fundo, é um grande melodrama de guerra americano, aquela choradeira sentimental que o Spielberg adora, fazendo algo extremamente comercial e popular tentando dar um ar de artístico, de sério e importante – bem americano. Já “Shakespeare Apaixonado” chocou e ainda choca algumas pessoas não pelo charme, pelas boas interpretações e pela espirituosidade, mas, como diz meu prof. de roteiro, pela brilhante dramaturgia do filme, super inovadora à época. Ora, o filme utiliza um ícone da cultura mundial para fazer uma comédia romântica, cujo desenvolvimento dramático tem toda uma ligação com várias obras de Shakespeare e ainda brinca com noções de realismo temporal e retrato de época de forma muito inteligente e divertida – o autor tem uma caneca de sua cidade natal, ele faz análise para ajudar em seus problemas, ele é cobrado por peças comerciais e rentáveis (óbvia alusão à vida de roteirista em Hollywood) – e ainda conseguindo atualizar temas batidos e clichês como o amor impossível e retratando figuras sóbrias de forma descompromissada e atual – a rainha Elizabeth dorme nas peças “profundas” e gosta mesmo é dos pastelões. Além disso, a direção de John Madden consegue criar todo o clima ideal, é de um apuro estético primoroso, conseguindo enquadramentos e planos memoráveis. E fora tudo isso há toda a competência técnica e os ótimos atores.

    Para mim, o filme vale muito mais do que Saviing Private Ryan, por sua inovação de gênero – a comédia romântica, o drama de época, a cinebiografia, o romance de época – e da forma de retratar filmes de época e personagens célebres da história ocidental, dando a tudo isso uma imensa qualidade técnica e artística e, ao mesmo tempo, um apelo popular. À mim, soa uma contribuição muito mais importante à linguagem cinematográfica.

    • É uma bela defesa do filme, e a respeito, mas obviamente discordo.

      Suas críticas a “Ryan” também foram feitas por alguns detratores naquela época e elas me não me parecem condizentes com a real preocupação do filme, cujo valor é justamente ressaltar o valor de cada vida em meio à aniquilação generalizada da guerra, ao contrário de outras fitas de guerra bem menos conscientes das vidas humanas em jogo. Isso não soa como sentimentalismo barato nem patriotada para mim, e sim como conteúdo. Spielberg nunca foi um cínico, um niilista ou um contador de histórias distanciado.

      Ademais, também me parece claro que o filme que mais contribuiu à “linguagem cinematográfica”, como você coloca, dos indicados ao Oscar daquele ano, foi “Ryan”, pois suas características fotográficas, sua falta de hesitação em focalizar a câmera em corpos despedaçados, sua visão documental durante as cenas de batalha, inegavelmente fizeram escola desde 1998 – o que é perceptível em outros exemplares do gênero como “Falcão Negro em Perigo” até em video games como “Gears of War”.

      “Shakespeare Apaixonado” pode ter esses atrativos que você citou, mas eu, particularmente, não consigo entender como eles seriam mais relevantes ao cinema em geral do que os da obra-prima de Spielberg.

  5. É que os atrativos que você destaca em “Ryan” já foram vistos antes, em outros filmes de guerra como “A Lista de Shindler” – do próprio Spielberg – “Full Metal Jacket”, “Glória Feita de Sangue”, “Apocalypse Now”, “O Franco Atirador”, “M*A*S*H” etc. Pra mim, o filme não traz nada de novo, no máximo, uma reciclagem, adaptada ao tempo, de coisas que já haviam sido feitas, ao contrário de “Shakespeare in love”, que mostrou algo que nunca fora visto.

    • O conteúdo temático de “Ryan” pode não ser absolutamente inédito – muito provavelmente não é -, mas sua identidade estética foi inovadora e influente, fazendo com que se distinga em meio ao rol de exemplares do gênero. “Shakespeare” teve coisas novas a dizer, de acordo com o seu ponto de vista, o que o torna especial, mas sua forma não tem nada de revolucionária.

      Assim sendo, tomando-se por base a “inovação”, nenhum dos dois alcança os 100% de ineditismo em ambas as esferas ao mesmo tempo: conteúdo e forma. Nem por isso não deixam de suscitar defesas apaixonadas, como é o nosso caso. :)

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